"Para tornar claro qual a finalidade dessa fase de
transformação e qual o significado desse termo "transformação" – que talvez
possa soar um tanto estranho - é preciso levar em consideração, antes de mais
nada, qual a necessidade da alma que passou despercebida nas fases anteriores. Em
outras palavras é preciso perceber o que mais ela poderia exigir, além e acima de
tornar-se um ser social normalmente ajustado. Ser normal é a coisa mais útil e
conveniente que se possa conceber. Mas a simples noção de "normal" ou
"ajustado" já implica limitar-se à média, que s6 pode ser sentido
como progresso por aquele que, por si, já tem dificuldade em dar conta da sua
vida dentro do mundo que o cerca, como, por exemplo aquele que, devido à sua
neurose, é incapaz de levar uma existência normal. Ser "normal" é a
meta ideal para os fracassados e todos
os que ainda se encontram abaixo do nível geral de ajustamento. Mas para as pessoas cuja capacidade
é bem superior à do homem médio, pessoas que nunca tiveram dificuldade em
alcançar sucessos e cujas realizações sempre foram mais do que satisfatórias, para
estas, a ideia ou a obrigação moral de não ser mais do que normal: significa o próprio
leito de Procusto, "Isto é, o tédio mortal, insuportável, um inferno
estéril sem esperança. Consequentemente, existem dois tipos de neuróticos: uns
que adoecem porque são apenas normais e outros, que estão doentes porque não, conseguem
tornar-se normais. A simples ideia de que alguém poderia querer educar os
primeiros para a normalidade representa para eles o maior pesadelo, pois a
necessidade mais profunda dessas pessoas é, na verdade, poder levar uma vida
extranormal." (Jung, OC. XVI/1 - § 161).