terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Discurso de Santo Antão

"Certa feita, à noite, Satanás aproximou-se da casa e bateu à porta. Saí para ver quem estava batendo. Quando levantei os olhos vi a figura de um homem muito alto e forte. Tendo-lhe perguntado 'quem é você?', respondeu-me: 'Eu sou Satanás'. Então eu lhe disse: 'O que está procurando?'Ele respondeu: 'Porque os monges, anacoretas e outros cristãos me maltratam e jogam todo o tempo maldições sobre mim?'Então firmei minha cabeça, admirando sua desvairada loucura, e disse: 'Por que você os atormenta?' Respondeu-me ele dizendo: 'Não sou eu que os atormento, mas são eles mesmo que os atormentam. Aconteceu comigo certa vez, e realmente aconteceu, que eles teriam chegado a um fim para sempre se não tivesse gritado que eu era o inimigo. Por isso não tenho lugar para morar, uma espada fulgurante e nem mesmo pessoas que estão realmente sujeitas a mim, porque os que estão ao meu serviço me desprezam totalmente; e, mais, tenho que mantê-los a ferro porque não se ligam a mim e acham certo assim proceder, e estão prontos a sempre escapar de mim em qualquer lugar. Os cristãos encheram o mundo todo e inclusive o deserto está cheio de mosteiros cenóbios. Que eles tomem cuidado para não me cumularem demais com suas maldições!'Então, louvando a graça do senhor, eu lhe disse: 'Como pode ser que você, que sempre mente em todas as ocasiões, esteja falando agora a verdade? E como pode ser que fale a verdade agora, quando está habituado a dizer mentiras? É verdade, que após a vinda de Cristo ao mundo, você foi lançado no mais profundo dos abismos e que a raiz de seus erros foi arrancada da terra'. Quando Satanás ouviu o nome de Cristo, sua figura desapareceu e suas palavras tiveram fim". (Santo Antão em Jung, 1949, Tipos Psicológicos, p. 67).