terça-feira, 26 de abril de 2016

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?)
[...]
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! (Fernando Pessoa – 1928)



domingo, 10 de abril de 2016

A felicidade

"Bem, se tivesse algum pendor para a filosofia, Enkidu poderia ter a certeza de que, ao menos naquele momento, não o era, pois a perda da felicidade se define justamente no instante em que se começa a filosofar sobre ela."
(Franchini e Seganfredo - Gilgamesh, pág. 96)

terça-feira, 5 de abril de 2016

Consciente...

Estou deitado na praia; cintila azul o mar rebrilhante nos olhos sonhadores; ao longe flutuam ares ondulantes... e avançando, espumando, excitando, adormentando, as ondas se quebram na praia .. ou no ouvido? Não sei. Longe e perto se confundem; fora e dentro se interpenetram. Perto, cada vez mais perto, mais íntimo e familiar ressoa o bater das vagas; ora se quebram como pulso trovejante em minha testa, ora recobrem minha alma, a envolvem, a tragam, e ao mesmo tempo ela nada para o largo, como correnteza azulada. Sim, o mundo fora e o mundo dentro são uma coisa só. Cintilar e espumar, escorrer e flutuar e ribombar — toda a sinfonia de estímulos percebidos ressoa num só tom, todos os sentidos se unem num só sentido, que se torna uno com o sentimento; o mundo se dissipa na alma e a alma se dissolve no mundo. Nossa pequena vida está envolta por uma torrente de sono.. O sono de nosso berço, o sono de nossa sepultura... O sono de nossa pátria, da qual partimos pela manhã e à qual retornamos à noite, nossa vida, a curta peregrinação, a tensão entre o emergir da unidade primitiva e o nela imergir!... Azul ondeia o mar, o infinito, em cuja imensidão ainda sonha a medusa daquela vida primeira até a qual nosso titubeante pressentir ainda se infiltra através de éons da recordação. Pois toda vivência contém uma mudança e uma preservação da unidade da vida. No momento em que elas já não se fundem, quando aquele que as vivência, ainda cego e gotejante, ergue a cabeça do fundo da torrente do vivenciar, do estado de total impregnação com o vivenciado, no momento em que a unidade vital, surpresa, esquiva, de si própria libera a mudança, a mantém diante de si como uma coisa estranha, neste instante de alheamento... as unidades de vivência já se substancializaram em sujeito e objeto, neste momento está presente o consciente.

(Joel em Jung - Símbolos da transformação da libido, pags.315-316).