"Certa feita, à noite, Satanás aproximou-se da casa e bateu à porta. Saí para ver quem estava batendo. Quando levantei os olhos vi a figura de um homem muito alto e forte. Tendo-lhe perguntado 'quem é você?', respondeu-me: 'Eu sou Satanás'. Então eu lhe disse: 'O que está procurando?'Ele respondeu: 'Porque os monges, anacoretas e outros cristãos me maltratam e jogam todo o tempo maldições sobre mim?'Então firmei minha cabeça, admirando sua desvairada loucura, e disse: 'Por que você os atormenta?' Respondeu-me ele dizendo: 'Não sou eu que os atormento, mas são eles mesmo que os atormentam. Aconteceu comigo certa vez, e realmente aconteceu, que eles teriam chegado a um fim para sempre se não tivesse gritado que eu era o inimigo. Por isso não tenho lugar para morar, uma espada fulgurante e nem mesmo pessoas que estão realmente sujeitas a mim, porque os que estão ao meu serviço me desprezam totalmente; e, mais, tenho que mantê-los a ferro porque não se ligam a mim e acham certo assim proceder, e estão prontos a sempre escapar de mim em qualquer lugar. Os cristãos encheram o mundo todo e inclusive o deserto está cheio de mosteiros cenóbios. Que eles tomem cuidado para não me cumularem demais com suas maldições!'Então, louvando a graça do senhor, eu lhe disse: 'Como pode ser que você, que sempre mente em todas as ocasiões, esteja falando agora a verdade? E como pode ser que fale a verdade agora, quando está habituado a dizer mentiras? É verdade, que após a vinda de Cristo ao mundo, você foi lançado no mais profundo dos abismos e que a raiz de seus erros foi arrancada da terra'. Quando Satanás ouviu o nome de Cristo, sua figura desapareceu e suas palavras tiveram fim". (Santo Antão em Jung, 1949, Tipos Psicológicos, p. 67).
Este espaço é reservado para momentos, pensamentos, reflexões, citações, mitologia, religião, alquimia e qualquer outra coisa que me venha a cabeça.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Pobre Alípio
"Mas a devassidão dos cartaginenses, que se manifesta em toda sua selvageria naqueles espetáculos brutais e vãos, o arrastara ao turbilhão desta miséria. (Agostinho o converteu com sua sabedoria). [E ele] depois destas palavras se reergueu da profundidade da lama pela qual voluntariamente se deixara tragar, e o ofuscara com prazeres infaustos; com corajosa abstinência sacudiu o lodo de sua alma, toda sujeira do circo o abandonou, e ali não mais foi ter. (Alípio foi então a Roma para estudar direito; e recaiu no erro). Uma infeliz paixão o atraiu perdidamente para os jogos de gladiadores. Pois se a princípio ainda os renegava e abominava, alguns amigos e colegas, que encontrou ao regressarem de um festim, o forçaram amistosamente a acompanhá-los ao anfiteatro no dia destes jogos cruéis e sanguinários, embora ele se negasse e resistisse com todas as suas forças.
Ele lhes disse: "ainda que arrasteis meu corpo para aquele lugar e o prendais, podereis voltar também meu espírito e meus olhos para aquele espetáculo? pois estarei presente-ausente e manter-me-ei além de vós e destes jogos". Apesar destas palavras, levaram-no consigo, curiosos em saber se realmente cumpriria o que dissera. Ao chegarem sentaram-se onde ainda haviam lugares, e tudo ardia em prazer desumano. Alípio fechou os olhos e proibiu sua alma de aventurar-se em tais perigos. Oh! tivesse ele também tapado os seus ouvidos. Pois quando um dos gladiadores caiu na luta e o povo irrompeu em tremendo clamor, deixou-se levar pela curiosidade. Disposto a desprezar orgulhosamente qualquer cena, fosse ela qual fosse, abriu os olhos. E sua alma foi ferida mais gravemente que o corpo daquele que desejara ver. Tombou mais miserável que aquele cuja queda provocou. O clamor que penetrou em seus ouvidos e o fez abrir os olhos, formando uma brecha através da qual foi atingido e derrubado, ele, mais arrojado do que forte de espírito, e tanto mais fraco por ter confiado em si mesmo, e não como deveria, em ti. Pois ao ver o sangue, também se sentiu dominado pela sede de sangue e não mais se desviou. Olhou para a luta e absorve-lhe o ódio, embora não soubesse. Regozijou-se no jogo nefando e deixou-se embriagar pelo prazer sanguinário. Já não era mais o mesmo de quando viera, e sim o autêntico cúmplice daqueles que o haviam trazido. Que mais se pode dizer? ele viu, participou do clamor, inflamou-se e levou consigo o desejo louco de voltar sempre e sempre de novo, não só em companhia daqueles que primeiro o haviam levado, mas à frente de todos e aliciando outros." (Confissões de Santo Agostinho, livro VI, caps. VII-VIII, p. 132s).
Da preguiça
"De todas as paixões, a mais desconhecida de nós mesmos é a preguiça; é a mais ardente e a mais maligna de todas, embora sua violência seja insensível e os danos que ela causa fiquem bem escondidos. Se considerarmos atentamente seu poder, veremos que em todos os encontros ela se torna dona dos nossos sentimentos, interesses e prazeres: é a rêmora que tem a força de deter as maiores embarcações; é a bonança mais perigosa para os assuntos importantes que os escolhos e as mais violentas tempestades. O repouso da preguiça é um encanto secreto da alma que susta repentinamente as mais ardentes diligências e as mais obstinadas resoluções; para dar, enfim, a verdadeira idéia desta paixão, é preciso dizer que a preguiça é como uma beatitude da alma que a consola de todas as suas perdas e que substitui os seus bens." (La Rochefoucald, Maxime DCXXX, p. 264).
Assinar:
Postagens (Atom)