domingo, 31 de julho de 2016

Velho Tema

Só a leve esperança, em toda a vida, Disfarça a
pena de viver, mais nada; Nem é mais a existência,
resumida, Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos

Existe, sim: mas nós não a alcançamos,
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.

(Vicente Augusto de Carvalho)

sábado, 30 de julho de 2016

POÉTICA

Rio de Janeiro , 1954

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
— Meu tempo é quando.

Nova York, 1950
(Vinicius de Morais)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Conversa entre Deus e o diabo

O ALTÍSSIMO
Do Fausto sabes?
MEFISTÓFELES
O doutor?
O ALTÍSSIMO
Meu servo, sim!
MEFISTÓFELES
De forma estranha ele vos serve, Mestre!
Não é, do louco, a nutrição terrestre.
Fermento o impele ao infinito,
Semiconsciente é de seu vão conceito;
Do céu exige o âmbito irrestrito
Corno da terra o gozo mais perfeito,
E o que lhe é perto, bem como o infinito,
Não lhe contenta o tumultuoso peito.
(Fausto - Parte I, pag. 53)

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Entrada para o inferno

VAI-SE POR MIM À CIDADE DOLENTE, 
VAI-SE POR MIM À SEMPITERNA DOR, 
VAI-SE POR MIM ENTRE A PERDIDA GENTE.

MOVEU JUSTIÇA O MEU ALTO FEITOR, 
FEZ-ME A DIVINA POTESTADE, 
MAIS O SUPREMO SABER E O PRIMO AMOR.

ANTES DE MIM NÃO FOI CRIADO MAIS NADA SENÃO ETERNO, 
E ETERNA EU DURO. 
DEIXAI TODA ESPERANÇA, Ó VÓS QUE ENTRAIS.
(Dante Alighieri).

domingo, 17 de julho de 2016

Cântico negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

(José Régio)

https://www.youtube.com/watch?v=9XpQ_UGGt2o

terça-feira, 12 de julho de 2016

Coniunctio entre Zeus e Hera

[ Nem Deus, nem mortal algum devem contemplar nossos prazeres, / Velados por nuvens, banhados em ouro, Nem mesmo o Sol, que dardeja seus raios pelo Céu, / E cujo amplo olhar vigia toda a Terra." Ele falou enquanto a fitava e, inspirado pelo que viu, / Seus braços ansiosos enlaçaram a Deusa. / Feliz, a Terra compreende, e de seu colo brotam, /espontâneas, ervas e flores; / Um tufo de violetas recém-nascidas estendem suave tapete, / E moitas de lótus acolchoam o leito alado, / Súbitos jacintos juncam a relva, / vistosos açafrões fazem a montanha brilhar. / Eis que nuvens douradas escondem o par celeste, / Envolto em doces prazeres e banhado pelo ar; / O orvalho do céu, descendo sobre o solo, / Perfuma o monte e por todo ele exala ambrosia. Por fim, vencido pela doce força do Amor e do Sono, / O ofegante Júpiter Tonante cerra os olhos para dormir.] (Livro XIV, Ilíada).