sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Pobre Alípio

"Mas a devassidão dos cartaginenses, que se manifesta em toda sua selvageria naqueles espetáculos brutais e vãos, o arrastara ao turbilhão desta miséria. (Agostinho o converteu com sua sabedoria). [E ele] depois destas palavras se reergueu da profundidade da lama pela qual voluntariamente se deixara tragar, e o ofuscara com prazeres infaustos; com corajosa abstinência sacudiu o lodo de sua alma, toda  sujeira do circo o abandonou, e ali não mais foi ter. (Alípio foi então a Roma para estudar direito; e recaiu no erro). Uma infeliz paixão o atraiu perdidamente para os jogos de gladiadores. Pois se a princípio ainda os renegava e abominava, alguns amigos e colegas, que encontrou ao regressarem de um festim, o forçaram amistosamente a acompanhá-los ao anfiteatro no dia destes jogos cruéis e sanguinários, embora ele se negasse e resistisse com todas as suas forças.
Ele lhes disse: "ainda que arrasteis meu corpo para aquele lugar e o prendais, podereis voltar também meu espírito e meus olhos para aquele espetáculo? pois estarei presente-ausente e manter-me-ei além de vós e destes jogos". Apesar destas palavras, levaram-no consigo, curiosos em saber se realmente cumpriria o que dissera. Ao chegarem sentaram-se onde ainda haviam lugares, e tudo ardia em prazer desumano. Alípio fechou os olhos e proibiu sua alma de aventurar-se em tais perigos. Oh! tivesse ele também tapado os seus ouvidos. Pois quando um dos gladiadores caiu na luta e o povo irrompeu em tremendo clamor, deixou-se levar pela curiosidade. Disposto a desprezar orgulhosamente qualquer cena, fosse ela qual fosse, abriu os olhos. E sua alma foi ferida mais gravemente que o corpo daquele que desejara ver. Tombou mais miserável que aquele cuja queda provocou. O clamor que penetrou em seus ouvidos e o fez abrir os olhos, formando uma brecha através da qual foi atingido e derrubado, ele, mais arrojado do que forte de espírito, e tanto mais fraco por ter confiado em si mesmo, e não como deveria, em ti. Pois ao ver o sangue, também se sentiu dominado pela sede de sangue e não mais se desviou. Olhou para a luta e absorve-lhe o ódio, embora não soubesse. Regozijou-se no jogo nefando e deixou-se embriagar pelo prazer sanguinário. Já não era mais o mesmo de quando viera, e sim o autêntico cúmplice daqueles que o haviam trazido. Que mais se pode dizer? ele viu, participou do clamor, inflamou-se e levou consigo o desejo louco de voltar sempre e sempre de novo, não só em companhia daqueles que primeiro o haviam levado, mas à frente de todos e aliciando outros." (Confissões de Santo Agostinho, livro VI, caps. VII-VIII, p. 132s).

Da preguiça

"De todas as paixões, a mais desconhecida de nós mesmos é a preguiça; é a mais ardente e a mais maligna de todas, embora sua violência seja insensível e os danos que ela causa fiquem bem escondidos. Se considerarmos atentamente seu poder, veremos que em todos os encontros ela se torna dona dos nossos sentimentos, interesses e prazeres: é a rêmora que tem a força de deter as maiores embarcações; é a bonança mais perigosa para os assuntos importantes que os escolhos e as mais violentas tempestades. O  repouso da preguiça é um encanto secreto da alma que susta repentinamente as mais ardentes diligências e as mais obstinadas resoluções; para dar, enfim, a verdadeira idéia desta paixão, é preciso dizer que a preguiça é como uma beatitude da alma que a consola de todas as suas perdas e que substitui os seus bens." (La Rochefoucald, Maxime DCXXX, p. 264).