Estou deitado na
praia; cintila azul o mar rebrilhante nos olhos sonhadores; ao longe flutuam
ares ondulantes... e avançando, espumando, excitando, adormentando, as ondas se
quebram na praia .. ou no ouvido? Não sei. Longe e perto se confundem; fora e
dentro se interpenetram. Perto, cada vez mais perto, mais íntimo e familiar
ressoa o bater das vagas; ora se quebram como pulso trovejante em minha testa,
ora recobrem minha alma, a envolvem, a tragam, e ao mesmo tempo ela nada para o
largo, como correnteza azulada. Sim, o mundo fora e o mundo dentro são uma
coisa só. Cintilar e espumar, escorrer e flutuar e ribombar — toda a sinfonia
de estímulos percebidos ressoa num só tom, todos os sentidos se unem num só
sentido, que se torna uno com o sentimento; o mundo se dissipa na alma e a alma
se dissolve no mundo. Nossa pequena vida está envolta por uma torrente de
sono.. O sono de nosso berço, o sono de nossa sepultura... O sono de nossa
pátria, da qual partimos pela manhã e à qual retornamos à noite, nossa vida, a
curta peregrinação, a tensão entre o emergir da unidade primitiva e o nela
imergir!... Azul ondeia o mar, o infinito, em cuja imensidão ainda sonha a
medusa daquela vida primeira até a qual nosso titubeante pressentir ainda se
infiltra através de éons da recordação. Pois toda vivência contém uma mudança e
uma preservação da unidade da vida. No momento em que elas já não se fundem,
quando aquele que as vivência, ainda cego e gotejante, ergue a cabeça do fundo
da torrente do vivenciar, do estado de total impregnação com o vivenciado, no
momento em que a unidade vital, surpresa, esquiva, de si própria libera a
mudança, a mantém diante de si como uma coisa estranha, neste instante de
alheamento... as unidades de vivência já se substancializaram em sujeito e
objeto, neste momento está presente o consciente.
(Joel em Jung - Símbolos da transformação da libido, pags.315-316).
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