sábado, 27 de fevereiro de 2016

O Hieros Gamos

O velho alquimista encontra-se entre as mesas cobertas de retortas borbulhantes e garrafas de líquidos misteriosamente coloridos. Ao seu lado, trabalhando com ele a cada passo do caminho, está uma jovem que se ocupa de sua tarefa, consultando vez por outra o velho sábio. Há uma espécie de tensão no ar e um sentimento de que muitos outros seres invisíveis estão presentes no antigo laboratório.
O alquimista tem-se ocupado por muitos anos desse único processo, experimentando primeiro uma combinação de ingredientes, depois outra. Por fim está pronto. Todos os componentes, cuidadosamente escolhidos, foram para o athanor, aquela pequena fornalha feita para a elaboração do Magnum opus. Essências de muitas plantas, flores e ervas estão incluídas. Hoje eles acrescentaram à mistura o extrato de raios solares; esta noite será a vez dos raios prateados da lua, e então deverá estar pronta!
As mãos da jovem tremem enquanto abre as cortinas. É o único sinal de que está nervosa. Uma lua cheia se esconde durante alguns momentos por detrás de um floco de nuvens azul noturno. Depois, pouco a pouco, os raios silenciosos de luz prateada penetram no aposento e incidem sobre a porta aberta do athanor, no lugar em que o velho o colocou para receber a essência lunar. Agora ele acrescenta uma gota de mais alguma coisa enquanto sua soror mystica, a sua alma-gêmea, assiste. A operação está completa. Rapidamente ele fecha a porta e lança um olhar final para a mulher amada que trabalhou tanto tempo ao seu lado.
O athanor brilha e se tinge de vermelho. Dentro, o processo se iniciou e não há como detê-lo agora, salvo ao custo da perda de tudo. Durante toda a noite o processo continua e é só pelos ruídos abafados dentro da fornalha bem fechada e pelo calor emitido por ela que se pode dizer que algo está acontecendo. Parece não haver ninguém no aposento para testemunhá-lo. Tanto o velho sábio como a jovem recuaram para as sombras, onde esperam, ocultos um do outro.
Por fim há uma alteração no athanor. Parou de brilhar ou emitir ruídos de qualquer espécie. Saindo das sombras emerge uma figura solitária; uma pessoa alta e esguia que se dirige com vigor juvenil ao pequeno forno e sem hesitação abre a portinhola. A mão forte e suave penetra no interior para retirar a substância e, enquanto o faz, uma sinuosa serpente engastada com pedrarias se enrosca ao redor do pulso até que sua cabeça se encontra com a cauda, que então prende na boca, parecendo entrar em hibernação. As mãos retiram a obra, uma obra que passaria despercebida pelos não-iniciados: uma pedra grande e lisa. Apenas uma pedra, mas dentro dela se encontram os opostos contidos em eterno equilíbrio, girando ao ritmo celestial tão precisamente sintonizados que para o olho não treinado o efeito é de estase.
A figura com seu bracelete engastado com forma de serpente mantém a pedra reverentemente suspensa e, à luz que esta emite, vemos que a figura não é a do velho alquimista nem de sua jovem auxiliar. É um ser completo em si mesmo, nem masculino nem feminino, antes ambos, com toda a sabedoria da idade, porém sustentado por um vigor juvenil. O magnum opus teve lugar. O ser andrógino foi criado através do hieros gamos.


(Maggy Anthony - As mulheres na vida de Jung, pags. 180-182)

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