O velho alquimista encontra-se entre
as mesas cobertas de retortas borbulhantes e garrafas de líquidos
misteriosamente coloridos. Ao seu lado, trabalhando com ele a cada passo do
caminho, está uma jovem que se ocupa de sua tarefa, consultando vez por outra o
velho sábio. Há uma espécie de tensão no ar e um sentimento de que muitos
outros seres invisíveis estão presentes no antigo laboratório.
O alquimista tem-se ocupado por
muitos anos desse único processo, experimentando primeiro uma combinação de
ingredientes, depois outra. Por fim está pronto. Todos os componentes,
cuidadosamente escolhidos, foram para o athanor,
aquela pequena fornalha feita para a elaboração do Magnum opus. Essências de
muitas plantas, flores e ervas estão incluídas. Hoje eles acrescentaram à
mistura o extrato de raios solares; esta noite será a vez dos raios prateados
da lua, e então deverá estar pronta!
As mãos da jovem tremem enquanto abre
as cortinas. É o único sinal de que está nervosa. Uma lua cheia se esconde
durante alguns momentos por detrás de um floco de nuvens azul noturno. Depois,
pouco a pouco, os raios silenciosos de luz prateada penetram no aposento e
incidem sobre a porta aberta do athanor,
no lugar em que o velho o colocou para receber a essência lunar. Agora ele
acrescenta uma gota de mais alguma coisa enquanto sua soror mystica, a sua
alma-gêmea, assiste. A operação está completa. Rapidamente ele fecha a porta e
lança um olhar final para a mulher amada que trabalhou tanto tempo ao seu lado.
O athanor
brilha e se tinge de vermelho. Dentro, o processo se iniciou e não há como
detê-lo agora, salvo ao custo da perda de tudo. Durante toda a noite o processo
continua e é só pelos ruídos abafados dentro da fornalha bem fechada e pelo
calor emitido por ela que se pode dizer que algo está acontecendo. Parece não
haver ninguém no aposento para testemunhá-lo. Tanto o velho sábio como a jovem
recuaram para as sombras, onde esperam, ocultos um do outro.
Por fim há uma alteração no athanor. Parou de brilhar ou emitir
ruídos de qualquer espécie. Saindo das sombras emerge uma figura solitária; uma
pessoa alta e esguia que se dirige com vigor juvenil ao pequeno forno e sem
hesitação abre a portinhola. A mão forte e suave penetra no interior para
retirar a substância e, enquanto o faz, uma sinuosa serpente engastada com
pedrarias se enrosca ao redor do pulso até que sua cabeça se encontra com a
cauda, que então prende na boca, parecendo entrar em hibernação. As mãos
retiram a obra, uma obra que passaria despercebida pelos não-iniciados: uma
pedra grande e lisa. Apenas uma pedra, mas dentro dela se encontram os opostos
contidos em eterno equilíbrio, girando ao ritmo celestial tão precisamente
sintonizados que para o olho não treinado o efeito é de estase.
A figura com seu bracelete engastado com
forma de serpente mantém a pedra reverentemente suspensa e, à luz que esta
emite, vemos que a figura não é a do velho alquimista nem de sua jovem
auxiliar. É um ser completo em si mesmo, nem masculino nem feminino, antes
ambos, com toda a sabedoria da idade, porém sustentado por um vigor juvenil. O magnum opus teve lugar. O ser andrógino foi criado através do hieros gamos.
(Maggy Anthony - As mulheres na vida de Jung, pags. 180-182)
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