quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Sobre a dualidade de Dioniso

Dioniso significa o abismo da diluição passional, onde toda a singularidade humana se dissolve na divindade da alma animalesca primordial. Trata-se de uma experiência ao mesmo tempo abençoada e terrível. A humanidade, protegida pela cultura, acredita ter escapado a essa experiência, até o momento em que se desencadeia uma nova orgia de sangue, provocando o espanto dos "bem-pensantes" que não tardam a acusar como culpados o capitalismo, o armamentismo, os judeus e os maçons... O intelecto, sem dúvida, é o diabo, um "estranho filho do caos", e o primeiro a quem podemos confiar a tarefa de lidar eficazmente com sua própria mãe. A experiência dionisíaca dá muito o que fazer ao diabo, sempre a procura de trabalho; o confronto com o inconsciente, que a isto se segue - segundo me parece - ultrapassa de longe os trabalhos de Hércules: um mundo de problemas que o intelecto não consegue resolver, nem mesmo em centenas de anos, o que explica por que a razão já entrou em férias diversas vezes a fim de recuperar-se, realizando tarefas mais simples. Por isso talvez a alma tenha caído tantas vezes e durante longos períodos no esquecimento, e o intelecto precisou recorrer com frequência a palavras apotropaicas, tais como "oculto" e "místico", na esperança de que até as pessoas inteligentes acreditassem que ele dissera alguma coisa. (Jung - Psicologia e Alquimia, pags. 99-102)

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